BookTok e influenciadores transformam recomendações literárias em fenômeno cultural
Das comunidades literárias do TikTok às indicações de personalidades conhecidas, as redes sociais ampliam a circulação de livros e levantam discussões sobre a formação de novos leitores

Um vídeo de poucos segundos pode despertar o interesse por um livro publicado há mais de um século. Indicações de influenciadores, resenhas e recomendações de personalidades conhecidas têm ampliado as possibilidades de descoberta de obras literárias, transformando as redes sociais em espaços de divulgação e troca de experiências entre leitores.
Em 2026, o movimento acontece em um cenário de crescimento das compras de livros no Brasil. Segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Nielsen BookData e divulgada em março, 18% da população brasileira com 18 anos ou mais comprou pelo menos um livro, impresso ou digital, em 2025. O resultado representa um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2024, equivalente a aproximadamente três milhões de novos compradores.
Os dados não comprovam que o crescimento tenha sido provocado pelas redes sociais, mas ajudam a contextualizar a expansão do consumo e o papel dos diferentes canais de divulgação. O levantamento também identificou que 56% dos consumidores de livros costumam fazer compras por meio das redes sociais. Além disso, 22% acompanham lançamentos por indicações de criadores de conteúdo.
A pesquisa ouviu 16 mil pessoas em outubro de 2025, incluindo compradores e não compradores de livros. Os resultados indicam que a relação entre literatura e ambiente digital vai além da divulgação de títulos e também alcança os hábitos de consumo.
BookTok aproxima livros de novos públicos
O termo BookTok combina as palavras em inglês book (livro) e TikTok. A expressão identifica uma comunidade de usuários que compartilha conteúdos literários na plataforma, incluindo resenhas, recomendações, reações a finais de histórias e comentários sobre diferentes gêneros.
Diferentemente da divulgação tradicional, que costuma partir de editoras, livrarias e veículos especializados, as recomendações nas redes sociais frequentemente valorizam a experiência pessoal de quem leu a obra. A linguagem informal e o formato audiovisual podem tornar o conteúdo mais acessível, despertando a curiosidade por títulos desconhecidos ou recuperando o interesse por livros antigos.
Booktok segue crescendo no mercado editorial | Crédito: Reprodução/Tik Tok/Gabrielle Botário
A percepção aparece em um levantamento realizado para esta reportagem, com 36 participantes. Desse total, 32 afirmaram ter percebido um aumento no interesse das pessoas por livros em 2026, enquanto quatro disseram não ter notado essa mudança.
O levantamento é exploratório, baseado nas respostas voluntárias dos participantes, e não representa a população brasileira. Ainda assim, as opiniões ajudam a compreender como as pessoas enxergam a influência das plataformas digitais na descoberta de novas obras.
A advogada Lara Paraguassú Rosenberg, de 26 anos, considera que as redes sociais contribuem para disseminar publicações e ampliar as discussões literárias.
“Eles disseminam novas obras e abrem espaço para troca de opiniões”, afirmou Lara.
Além de apresentar lançamentos, as comunidades digitais podem estimular o contato com gêneros que o leitor ainda não conhece. As discussões também permitem que diferentes interpretações de uma mesma história circulem entre os usuários, ampliando a experiência para além da leitura individual.
Outro aspecto é a possibilidade de descobrir obras por meio de pessoas que não trabalham diretamente com literatura. Um exemplo é o jogador de futebol Gustavo Scarpa, jogador do Atlético Mineiro, que compartilha recomendações de livros nas redes sociais, alcançando seguidores que podem não acompanhar perfis especializados no assunto.
Esse tipo de indicação mostra como a influência construída em uma área pode despertar interesse por outra. Entretanto, a repercussão de uma recomendação não significa, necessariamente, que todos os seguidores irão comprar ou terminar de ler a obra.
Mercado editorial registra crescimento em 2026
O desempenho do mercado editorial brasileiro também reforça a relevância econômica do setor. Dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com base no levantamento Retail BookScan, realizado pela Nielsen BookScan, mostram que o varejo monitorado vendeu 44,7 milhões de exemplares nas primeiras 36 semanas de 2026, com faturamento de R$ 2,38 bilhões.
Na comparação com o mesmo período de 2025, o volume de exemplares vendidos aumentou 8,7%, enquanto o faturamento cresceu 11,9%.
O resultado foi divulgado pelo SNEL em outubro de 2026. O levantamento acompanha as vendas de livros no varejo monitorado, mas não mede diretamente a quantidade de pessoas que leem ou a influência isolada de plataformas como o TikTok.
Apesar dos números positivos, o acesso aos livros continua sendo um desafio. A pesquisa da CBL e da Nielsen BookData apontou que, entre as pessoas que não compraram livros em 2025, 35% citaram o preço como um dos motivos para não adquirir exemplares. A falta de livrarias ou lojas próximas também foi mencionada como obstáculo.
Esses fatores ajudam a explicar por que a popularidade digital não se converte automaticamente em consumo. Uma recomendação pode despertar o interesse por uma obra, mas o preço, a disponibilidade e as condições de acesso influenciam a decisão de compra.
Bienal do Livro de São Paulo bate recorde de público
Segundo sábado da Bienal de São Paulo de 2026 | Crédito: Divulgação/Gabrielle Botário
Além do ambiente digital, os eventos literários continuam sendo importantes espaços de encontro entre leitores, autores e editoras.
A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada entre 4 e 13 de setembro de 2026, recebeu 760 mil visitantes no Distrito Anhembi, segundo o balanço divulgado pela organização. O número superou o público de 722 mil pessoas registrado na edição de 2024.
O evento também apresentou crescimento econômico. De acordo com a organização, a média diária de faturamento dos expositores aumentou 57% em relação à edição anterior.
A Bienal reuniu 269 expositores e cerca de 800 autores, dos quais 91% eram brasileiros. A programação também contou com iniciativas de acesso, incluindo R$ 20 milhões em vales-livro e benefícios destinados a estudantes e servidores da rede municipal.
Os números mostram a dimensão do encontro presencial e sua capacidade de reunir diferentes públicos em torno da literatura. No entanto, assim como acontece com as redes sociais, o alcance do evento não permite concluir, por si só, que os visitantes desenvolverão um hábito frequente de leitura.
Para Maysa dos Santos Barbosa, professora de 24 anos, as feiras literárias podem despertar a curiosidade de pessoas que ainda não possuem um hábito consolidado.
"O contato com diferentes publicações e a possibilidade de compartilhar interesses ajudam a aproximar o público dos livros", contou Maysa.
A experiência presencial, entretanto, também apresenta limitações. A distância dos grandes centros, os custos de transporte e a concentração de eventos em determinadas cidades podem dificultar a participação de leitores de outras regiões.
Por isso, as redes sociais e as feiras literárias não precisam ser vistas como alternativas concorrentes. Enquanto o ambiente digital facilita a descoberta de obras, os encontros presenciais oferecem oportunidades para conhecer autores, explorar títulos e participar de atividades culturais.
Entre a tendência e o hábito de leitura
O crescimento da visibilidade dos livros nas redes sociais também levanta uma questão: começar a ler porque uma obra está em alta significa desenvolver um hábito de leitura?
As respostas do levantamento realizado para esta reportagem mostram opiniões diferentes. Parte dos participantes acredita que as tendências digitais podem funcionar como uma porta de entrada para a literatura. Outros apontam que o interesse também pode estar relacionado à vontade de pertencer a uma comunidade ou compartilhar nas redes uma atividade que ganhou popularidade.
A jornalista Dayna Nassif Barossi, de 38 anos, apresenta uma visão crítica sobre essa exposição.
“Acho que muito gente voltou a ler para mostrar nas redes sociais que é uma pessoa culta”, avaliou Dayna.
A observação aponta para uma contradição do fenômeno: a leitura pode se tornar uma forma de construir uma imagem pública, mas a exposição também pode despertar a curiosidade de pessoas que não tinham contato frequente com os livros.
A designer gráfica Allainy Cassia da Silva Pereira, de 23 anos, acredita que a motivação inicial não determina necessariamente a relação que alguém desenvolverá com a literatura.
“Acredito que uma coisa leva à outra”, afirmou Allainy.
Para ela, o que começa como curiosidade ou vontade de acompanhar uma tendência pode se transformar em interesse genuíno pelas histórias.
Essa possibilidade também aparece na resposta de Karelly Rafaella Humerez Da Costa, estudante de medicina de 23 anos. Ela considera que as comunidades digitais ajudam a criar vínculos entre leitores e incentivam a troca de experiências.
Segundo Karelly, pessoas próximas a ela que não tinham tanto contato com os livros passaram a ler com mais frequência depois de conhecerem comunidades literárias.
As experiências relatadas mostram que a leitura pode começar por diferentes motivos: uma indicação, a identificação com um influenciador, a participação em uma comunidade ou o interesse por uma história específica. A continuidade da prática, porém, depende de fatores que vão além da popularidade de um título.
Perfil de um perfil de livro do Instagram | Crédito: Divulgação/Gabrielle Botário
O desafio de transformar visibilidade em acesso
O avanço das redes sociais ampliou os caminhos pelos quais os livros chegam aos leitores. Recomendações de criadores de conteúdo, vídeos virais e discussões em comunidades digitais ajudam a colocar obras em circulação e aproximar a literatura de públicos diversos.
Os dados do mercado editorial e da Bienal de São Paulo mostram que o setor mantém uma presença expressiva tanto no consumo quanto nos encontros presenciais. Ao mesmo tempo, os obstáculos relacionados a preço e acesso indicam que a visibilidade não resolve todos os desafios da formação de leitores.
O BookTok pode despertar a curiosidade e transformar livros em assunto de interesse coletivo, mas a consolidação de um hábito depende de condições para que as pessoas continuem lendo. Nesse cenário, o desafio não está apenas em fazer uma obra viralizar, mas em ampliar o acesso à literatura e criar oportunidades para que o interesse inicial se transforme em uma relação duradoura com a leitura.
