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O caminho das fanfics: histórias de fãs que ganham as telas

Como narrativas criadas por fãs na internet podem sair dos fandoms, chegar às livrarias e, em alguns casos, ganhar adaptações audiovisuais.

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Fanfictions nasceram em comunidades de fãs e ganharam novas formas de publicação com a expansão da internet | Crédito: Shutterstock
Fanfictions nasceram em comunidades de fãs e ganharam novas formas de publicação com a expansão da internet | Crédito: Shutterstock

Uma história nasce na internet, publicada por alguém que escreve e compartilha a narrativa com outros fãs. Com o tempo, ela pode conquistar leitores, receber comentários, ganhar visibilidade e ultrapassar os limites daquele fandom. Em alguns casos, chega às editoras, transforma-se em livro e posteriormente ganha uma adaptação para o cinema ou para o streaming.

Esse caminho já aconteceu com obras como Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James, After, de Anna Todd, e A Hipótese do Amor, de Ali Hazelwood. Mais recentemente, a trajetória de SenLinYu, autore de Alchemised, voltou a chamar atenção para a relação entre a produção de fãs e o mercado editorial e audiovisual.

Mas, afinal, como uma história criada por um fã consegue percorrer esse caminho?

O que é uma fanfic?

O termo fanfic é uma abreviação de fanfiction, expressão em inglês que pode ser traduzida como “ficção de fã”. São histórias criadas por fãs a partir de personagens, universos ou elementos de obras que já existem, como livros, filmes, séries, jogos e outros produtos da cultura pop.

Nos estudos de linguagem, a fanfic é analisada como uma forma de produção textual ligada à cultura de fãs e ao ambiente digital. Pesquisas brasileiras, como as dissertações de Daniele Rodrigues Nunes, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, e Érica Raquel Marchesine dos Santos, da Universidade Federal de São Paulo, observam a produção de fanfics em plataformas digitais e sua relação com a cultura de fãs e os processos de publicação.

Na prática, a lógica é simples: o fã parte de uma história conhecida, mas cria outra possibilidade para aqueles personagens. Pode imaginar um relacionamento que nunca aconteceu na obra original, mudar o final, criar acontecimentos paralelos ou transportar os personagens para outro contexto.

É justamente essa liberdade que permite que uma mesma história seja reinterpretada inúmeras vezes.

Antes da internet, já existiam histórias de fãs

Apesar de hoje estarem fortemente associadas à internet, as fanfics não surgiram com as plataformas digitais.

Antes dos sites e aplicativos, fãs já produziam e compartilhavam publicações independentes, conhecidas como fanzines. Na comunidade de ficção científica, essas publicações circulavam desde a década de 1930. O termo “fanzine” seria criado posteriormente, em 1940, pelo fã de ficção científica Russ Chauvenet.

A fanfiction em sua forma moderna ganhou força especialmente nas décadas seguintes. Um dos principais marcos reconhecidos é Spockanalia, fanzine dedicado a Star Trek publicado em 1967. A publicação reunia histórias, poemas, ilustrações, comentários e outros conteúdos produzidos por fãs. O Guinness World Records reconhece Spockanalia como o primeiro exemplo de fanfiction moderna.

A internet mudou a dimensão dessa prática. O que antes circulava em comunidades menores passou a ser publicado em sites, fóruns e plataformas que permitem que histórias sejam encontradas por leitores de diferentes lugares.

De fã para autor

A publicação de uma fanfic não termina necessariamente quando o autor escreve o último capítulo.

Nas plataformas digitais, leitores podem comentar, recomendar histórias e acompanhar a publicação capítulo por capítulo. Para Lara Utzig, doutora em Estudos Literários pela Unesp e pesquisadora da relação entre fanfics e mercado editorial, essa interação é uma das características importantes da prática. Em entrevista ao Globo, ela explica que os comentários dos leitores podem influenciar o desenvolvimento dos capítulos seguintes, criando uma relação de participação entre quem escreve e quem acompanha a história.

Esse processo também ajuda a explicar a força dos fandoms. O escritor não está necessariamente produzindo para um público desconhecido. Muitas vezes, escreve para pessoas que já conhecem aquele universo e compartilham referências, personagens favoritos e interesses semelhantes.

É nesse ambiente que surgem plataformas como Wattpad, Spirit, Archive of Our Own (AO3) e Fanfiction.net, utilizadas para publicar e encontrar histórias de diferentes fandoms. O AO3, por exemplo, é uma organização sem fins lucrativos criada para arquivar trabalhos transformativos de fãs.

##Quando a fanfic chega às livrarias Passar da internet para o mercado editorial, no entanto, não significa simplesmente imprimir a mesma história.

Segundo Lara Utzig, a publicação comercial exige adaptações e reescrita. Uma fanfic costuma estar ligada a personagens e universos que pertencem a outras obras, enquanto o livro publicado como ficção original precisa se tornar independente desse universo.

Um dos casos mais conhecidos é o de Cinquenta Tons de Cinza. Antes de se tornar o primeiro livro da série de E. L. James, a história foi publicada como a fanfic Master of the Universe, inspirada em Crepúsculo, de Stephenie Meyer. Na versão publicada, os personagens e outros elementos ligados à obra original foram modificados, dando origem a Christian Grey e Anastasia Steele.

Screenshot 2026-09-30 at 19.15.35.png A fanfic Master of the Universe, inspirada em Crepúsculo, deu origem a Cinquenta Tons de Cinza | Crédito: Google

Outra trajetória conhecida é a de After, de Anna Todd. A história surgiu no Wattpad como uma fanfiction ligada ao fandom de One Direction, tendo Harry Styles como referência para o protagonista masculino. Na versão publicada, os integrantes da banda deixaram de ser os personagens da trama, e Harry tornou-se Hardin Scott. A obra posteriormente ganhou adaptações para o cinema.

Screenshot 2026-09-30 at 19.15.41.png After, de Anna Todd. A história surgiu no Wattpad como uma fanfiction ligada ao fandom de One Direction | Crédito: Google

Os dois exemplos mostram que o caminho entre fanfic e livro envolve uma transformação da história. A narrativa pode preservar ideias, relações ou conflitos centrais, mas precisa deixar de depender diretamente do universo que serviu de inspiração.

De Star Wars para Stanford

Um exemplo mais recente dessa transformação é A Hipótese do Amor, de Ali Hazelwood.

Antes de virar romance publicado em 2021, a história existia como a fanfic Head Over Feet, escrita por Hazelwood sob o pseudônimo Ever_So_Reylo e publicada no Archive of Our Own em 2018. A narrativa era inspirada no relacionamento entre Rey e Kylo Ren, personagens de Star Wars.

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Na versão publicada, Rey e Kylo Ren deram lugar a Olive Smith e Adam Carlsen, em uma história ambientada no meio acadêmico. A trama manteve elementos centrais da história original, mas passou a funcionar como uma obra independente.

A transformação não terminou no livro. Em 23 de setembro de 2026, A Hipótese do Amor chegou ao Prime Video em uma adaptação estrelada por Lili Reinhart e Tom Bateman. O filme é baseado no romance de Hazelwood, e não na fanfic original.

O caso mostra uma trajetória que começa dentro de um fandom, passa pela publicação profissional e chega a uma produção audiovisual. É também um exemplo de como uma história criada a partir de personagens conhecidos pode ser reconstruída até adquirir identidade própria.

Screenshot 2026-09-30 at 19.15.48.png A trajetória da obra reúne fanfic, publicação comercial e adaptação audiovisual | Crédito: Google

O caso SenLinYu

Em 2026, outro nome ajudou a colocar essa trajetória em evidência no Brasil: SenLinYu.

A autora ficou conhecida inicialmente pela fanfic Manacled, inspirada no universo de Harry Potter.

Publicada no Archive of Our Own em 2018, a história posteriormente foi completamente reimaginada para dar origem a Alchemised, fantasia publicada pela Del Rey em setembro de 2025.

Na nova versão, os personagens e elementos ligados ao universo de Harry Potter deram lugar a uma história própria, com novos personagens e um universo de fantasia sombria.

Alchemised alcançou o primeiro lugar da lista de mais vendidos do New York Times e, segundo a Penguin Random House, já ultrapassou a marca de um milhão de exemplares vendidos. Os direitos para uma adaptação cinematográfica também foram adquiridos pela Legendary Entertainment.

Segundo informações citadas pela revista Exame a partir da revista norte-americana The Hollywood Reporter, a negociação superou US$ 3 milhões. Até setembro de 2026, não havia data de lançamento anunciada para o filme.

No Brasil, SenLinYu participou da Bienal do Livro de São Paulo em setembro de 2026. A participação aconteceu nos dias 12 e 13 de setembro, com uma mesa sobre Alchemised e sessões de autógrafos.

A trajetória de Manacled até Alchemised mostra que a relação entre fanfic e mercado não se resume a trocar nomes de personagens. Em alguns casos, a história passa por uma reconstrução mais ampla, com novos personagens, universo e regras próprias.

Entre o fandom e o mercado

Nem toda fanfic segue o caminho até uma editora ou um estúdio. Muitas continuam existindo dentro das próprias comunidades de fãs, onde o objetivo pode ser simplesmente escrever, compartilhar uma ideia ou imaginar novas possibilidades para uma história conhecida.

Quando uma delas chega ao mercado editorial, entretanto, existe uma mudança importante. A narrativa deixa de depender diretamente da obra que a inspirou e passa por um processo de adaptação e reescrita. É nesse momento que uma história criada por um fã pode se tornar uma obra comercial com personagens e universo próprios.

Os exemplos de Cinquenta Tons de Cinza, After, A Hipótese do Amor e Alchemised mostram caminhos diferentes para esse processo. Algumas histórias nascem em plataformas digitais, conquistam leitores dentro de um fandom e depois são reescritas para o mercado editorial. Em outros casos, esse novo livro ainda percorre mais uma etapa e chega ao cinema ou ao streaming.

Mais do que uma porta de entrada para novos autores, as fanfics revelam uma mudança na forma como histórias são criadas e compartilhadas. O leitor não precisa permanecer apenas do outro lado da página. Ele também pode escrever, publicar, receber respostas e construir uma comunidade em torno da própria narrativa.

E, em alguns casos, essa história pode começar como uma publicação entre fãs e terminar diante das câmeras.

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